Antes de se caracterizar qualquer mal-estar físico ou
psicológico, espalham-se pelo corpo manchas vermelhas,
que o doente só percebe, de repente, quando se tornam
escuras. Ele nem tem tempo de se assustar, e sua cabeça
já começa a ferver, a tornar-se gigantesca pelo peso, e ele
cai. Então, é tomado por uma fadiga atroz, a fadiga de uma
aspiração magnética central, de suas moléculas cindidas
em dois e atraídas para sua aniquilação. Seus humores
descontrolados, revolvidos, em desordem, parecem galopar
através de seu corpo. Seu estômago se embrulha, o
interior de seu ventre parece querer sair pelo orifício dos
dentes. Seu pulso, que ora diminui até tornar-se uma sombra,
uma virtualidade de pulso, ora galopa, segue a efervescência
de sua febre interior, a turbulenta desordem de
seu espírito. O pulso batendo através de golpes precipitados
como seu coração, que se torna intenso, pleno, barulhento;
o olho vermelho, incendiado e depois vítreo; a
língua que sufoca, enorme e grossa, primeiro branca, depois
vermelha e depois preta, como que carbonífera e
rachada, tudo isso anuncia uma tempestade orgânica sem
precedentes. Logo os humores trespassados como a terra
pelo raio, como um vulcão trabalhado pelas tempestades
subterrâneas, procuram a saída para o exterior. No meio
das manchas criam-se pontos mais ardentes, ao redor desses
pontos a pele se ergue em pelotas como bolhas de ar
sob a epiderme de uma lava, e essas bolhas são cercadas
por círculos, o último dos quais, como um anel de Saturno
ao redor do astro em plena incandescência, indica o
limite extremo de um bubão.O corpo fica cheio de bubões. Mas, assim como os
vulcões têm seus lugares eleitos sobre a terra, os bubões
também têm lugares eleitos no corpo humano. A dois ou
três dedos da virilha, sob as axilas, nos locais preciosos
onde glândulas ativas realizam fielmente suas funções,
aparecem bubões, através dos quais o organismo descarrega
ou sua podridão interior ou, conforme o caso, sua
vida. Uma conflagração violenta e localizada num ponto
indica na maioria das vezes que a vida central nada perdeu
de sua força e que uma remissão do mal ou mesmo
sua cura é possível. Assim como o cólera branco, a peste
mais terrível é a que não divulga suas feições.
Aberto, o cadáver do pestífero não mostra lesões. A
vesícula biliar, encarregada de filtrar os dejetos entorpecidos
e inertes do organismo, fica inflada, quase estourando,
cheia de um líquido escuro e pegajoso, tão compacto
que lembra uma matéria nova. O sangue das artérias,
das veias, também é preto e pegajoso. O corpo fica
duro como pedra. Nas paredes da membrana estomacal
parecem ter despertado inúmeras fontes de sangue. Tudo
indica uma desordem fundamental das secreções. Mas não
há nem perda nem destruição de matéria, como na lepra
ou na sífilis. Os próprios intestinos, lugar dos distúrbios
mais sangrentos, onde as matérias atingem um grau inusitado
de putrefação e petrificação - os intestinos não
estão organicamente atacados. A vesícula biliar, de onde
é preciso quase arrancar o pus endurecido, como em alguns
sacrifícios humanos, com uma faca afiada, um instrumento
de obsidiana, vítreo e duro - a vesícula biliar está
hipertrofiada e quebradíça em alguns lugares, mas intacta,
sem lhe faltar nenhum pedaço, sem lesão visível, sem
matéria perdida.No entanto, em certos casos os pulmões e o cérebro
lesados ficam escuros e gangrenados. Os pulmões amolecidos,
fragmentados, desfazem-se em pedaços de uma
matéria preta qualquer e o cérebro está fundido, gasto, pulverizado,
reduzido a pó, desagregado numa espécie de
pó de carvão preto.
Daí, devem-se destacar duas observações importantes:
a primeira é que as síndromes da peste dispensam a
gangrena dos pulmões e do cérebro, o pestífero não apresenta
apodrecimento de nenhum de seus membros. Sem
subestimá-la, o organismo não requer a presença de uma
gangrena localizada e física para determinar sua própria
morte.
A segunda observação é que os dois únicos órgãos
realmente atingidos e lesados pela peste, o cérebro e os
pulmões, são os que dependem diretamente da consciência
e da vontade. Podemos impedir-nos de respirar ou de
pensar, podemos precipitar nossa respiração, ritmá-la à
vontade, torná-la voluntariamente consciente ou inconsciente,
introduzir um equilíbrio entre os dois tipos de respiração:
o automático, que está sob as ordens diretas do sistema
simpático, e o outro, que obedece aos reflexos do
cérebro tornados conscientes.
Também podemos precipitar, tornar mais lento e ritmar
o pensamento. Podemos regulamentar o jogo inconsciente
do espírito. Não podemos dirigir a filtragem dos
humores pelo fígado, a redistribuição do sangue através
do organismo pelo coração e pelas artérias, controlar a
digestão, parar ou apressar a eliminação das matérias do
intestino. A peste, portanto, parece manifestar sua presença
nos lugares, afetar todos os lugares do corpo, todas as localizações do espaço físico, em que a vontade humana,
a consciência e o pensamento estão prestes e em via de
se manifestar. ANTONIN ARTAUD
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